Histórico
Mais
forte por vezes do que a refutação teórica, é o exame dos resultados práticos.
O Relatório sobre o Desenvolvimento Humano 1998 examina os problemas do
consumo sob a ótica das necessidades das pessoas, o que constitui uma
inovação ousada. A visão é essencialmente uma chamada para a realidade: "O
mundo tem recursos mais do que suficentes para acelerar o desenvolvimento
humano para todos e para eradicar as piores formas de pobreza do planeta. Fazer
avançar o desenvolvimento humano não é uma tarefa exorbitante. Por exemplo,
estimou-se que o total adicional de investimento anual necessário para atingir
acesso universal aos serviços sociais básicos seria de aproximadamente $40
bilhões, 0,1% da renda mundial, pouco mais do que um arredondamento
estatístico. Isto cobre a conta da educação básica, saúde, nutrição, saúde
reprodutiva, planejamento familiar e acesso a água e saneamento para
todos".
Sob o
título de "As prioridades do mundo?", e a título ilustrativo, o
Relatório compara necessidades não cobertas por falta de recursos, e recursos
de prioridade duvidosa. Por exemplo, o investimento anual suplementar para
assegurar educação básica para todos seria de $6 bilhões, que não se conseguem,
enquanto se gastam $8 bilhões em cosméticos nos EUA; para assegurar água segura
e saneamento para todos, seriam necessários $9 bilhões, e se gastam na Europa
$11 bilhões em sorvete; saúde reprodutiva universalizada exigiria 12 bilhões
suplementares por ano, o mesmo que se gasta em pefumes na Europa e nos EUA;
saúde e nutrição básicas para todos exigiria $13 bilhões suplementares por ano,
e se gastam $17 em ração para animais de estimação na Europa e EstadosUnidos.
Além disso, gasta-se $35 bilhões em entretenimento para executivos no Japão,
$50 bilhões em cigarros na Europa, $105 bilhões em bebida alcóolica na Europa,
$400 bilhões em narcóticos no mundo, e $780 bilhões em despesas militares no
mundo.
Assim a
degradação simultanea de capacidade reguladora por parte do mercado e do Estado
leva a uma deformação do consumo. E quando o consumo, ou seja, o interesse
final do consumidor, não é mais determinante, os processos produtivos se
deformam. O mundo que herdamos deste processo é cada vez mais surrealista. O
que está acontecendo, na realidade, é que estamos aplicando a uma realidade
nova sistemas de regulação ultrapassados. Explica-se por mecanismos de mercado,
teoricamente objetivos, dinâmicas que pertencem a mecanismos articulados de
poder, que geram por sua vez uma cultura surrealista de comportamento econômico
que tem muito pouco a ver com o que queremos da nossa vida.
Na
realidade, é o conjunto do contexto que está mudando. Com as novas tecnologias
os nossos gastos são cada vez menos de compra de um produto e cada vez mais de
adesão a um direito de acesso, como no plano de saúde, na telefonia, na TV a
cabo, no condomínio e tantos outros sistemas de consumo onde a nossa escolha é
extremamente limitada. A urbanização levou a uma expansão do consumo
coletivo onde as opções são igualmente frágeis: temos muito pouco a dizer sobre
a qualidade ou densidade de linhas de transporte coletivo, de recolha de lixo,
de arborização das nossas ruas, limpeza dos nossos rios. Com a ampliação do
poder corporativo, deixamos de ser indivíduos que optam, para nos tornarmos um
"plantel" atribuido a um grande fornecedor: somos clientes de um
banco porque a nossa empresa fez um acordo de lhe "fornecer"
determinado número de contas de funcionários, e não fizemos alguma escolha, e a
cartelização torna inclusive as opções pouco diferenciadas.
No
conjunto de atividades onde o elemento principal é "imaterial", ou
"intangível", no quadro do que tem se chamado de economia da
informação, ficamos na dependência do que tem sido educadamente chamado
de "propriedade intelectual": o conhecimento constitui uma mercadoria
entre aspas, pois só se torna fonte de lucro se uma empresa puder limitar o
acesso e cobrar pedágio sobre o seu uso.
São
novas realidades, que tem como denominador comum a fragilização do
consumidor. E o que é o capitalismo quando o elemento regulador principal
que seria a demanda final deixou de exercer este papel? À medida que os
mercados - no sentido original de mecanismo regulador democrático de inúmeros
agentes econômicos - se tornam menos operacionais numa série de áreas, o
sistema evolui para subsistemas diferenciados de articulação organizada de
interesses corporativos, variando segundo os setores, as regiões e culturas
econômicas herdadas. E para entender estes subsistemas, precisamos de estudos
empíricos inovadores.
Efeitos de um consumo inteligente
Os
eixos alternativos não resultam de algum desenho institucional pre-fabricado,
mas de uma mistura de rejeição dos valores que nos são impostos com a busca
pragmática de alternativas que funcionem. As pessoas simplesmente se defendem.
O slow
food é um movimento importante. Surgindo na Itália a partir de pessoas
preocupadas em ter uma vida mais agradável ainda que não necessariamente mais
eficiente, o movimento tornou evidente o fato de que na corrida por nos
tornarmos competitivos, esquecemos que estamos gerando um deperdício monumental
do único recurso absolutamente não renovável que é o nosso tempo de vida. A
apropriação comercial do nosso tempo parece ser um progresso, porque não leva
em conta como valor o tempo não comercial da vida. Os exemplos são inúmeros,
como o dos down-shifters nos Estados Unidos, que optam por uma vida com menos
entulho de produtos comerciais e mais qualidade de vida, e representam na realidade
um movimento cultural amplo e difuso, mas poderoso.
Muita
gente aprendeu a "votar com o bolso", tanto no plano negativo,
deixando de comprar produtos que são ambientalmente agressivos, como no plano
positivo, privilegiando produtos de cooperativas, de economia solidária e
coisas do gênero. Na realidade, esta tendência está se ampliando, e leva muitas
empresas a melhorarem a sua aparência cosmética, o que é positivo, pois
gradualmente abre espaço para novas dinâmicas.
Outro
eixo de ação consiste na organização da sociedade em torno aos seus interesses,
ainda que pontuais. Em numerosos lugares estão surgindo ONGs de intermediação
financeira, onde a remuneração das aplicações é razoável, mas sobretudo o
dinheiro é investido de forma socialmente útil: as pessoas estão simplesmente
desintermediando os fluxos de poupanças, descobrindo que não precisam
necessariamente sustentar os gigantes burocráticos que são os bancos modernos.
Há
comunidades que simplesmente optaram por criar a sua própria moeda, como a cidade
de Palmas, no Ceará. Frente ao arrocho de crédito que os bancos privados
geraram e aos juros obscenos cobrados, Palmas emite a sua própria moeda, pois
afinal trata-se de um meio de troca, e não de um valor em sí. A experiência deu
tão certo, em termos de dinamização da economia, que outros onze municípios
estão adotando o sistema.
Há
comunidades que enxugam o desemprego através da troca de serviços entre as
pessoas, um tipo de crédito em horas de trabalho. Cada um pode disponibilizar
as suas horas vagas prestando serviços na vizinhança, e ganha com isso um
"crédito" de horas trabalhadas que lhe permitirá receber serviços
correspondentes de outras pessoas: a moeda de troca não são unidades de
dinheiro, mas unidades de tempo de serviços prestados.
Soluções
Teoricamente,
o consumo constitui uma atividade agradável que consiste em satisfazer um
conjunto de necessidades. A produção individual - em que nós mesmos fazemos o
que vamos consumir - perdeu muito espaço nas sociedades modernas, e quase tudo
é intermediado por terceiros, sejam empresas, administrações públicas ou
organizações da sociedade civil. Como temos de passar por diversas formas
de organização social para satisfazer as nossas necessidades de consumo,
coloca-se cada vez mais uma avaliação de como esta intermediação está se
estruturando.
Algumas
necessidades são satisfeitas por empresas fornecedoras de bens e serviços;
outras por meio de bens e serviços fornecidos pelo Estado (escolas, água,
estradas...); outras ainda por meio de organizações da sociedade civil
(entidades esportivas, ONGs especializadas, organizações comunitárias,
interesses difusos...); outras necessidades enfim não são comerciais - ou não
deveriam ser - como por exemplo a expressão do sentimento religioso, e
aparentemente têm pouco a ver com a economia. O consumo, no sentido amplo,
envolve assim uma gama extremamente ampla de atividades, e formas diferenciadas
de organização social.
Quando
compramos um pãozinho na padaria, invade-nos o cheiro do pão quentinho, somos
cercados pelo burburinho dos comentários úteis ou inúteis que se ouve, e no
conjunto temos o sentimento de que as coisas funcionam. Quando esperamos na
fila do banco, esta satisfação já se reduz bastante. Quando a telefônica nos
diz que tecla devemos apertar para buscar o serviço que nos interessa, já
estamos bastante irritados. E quando somamos no fim do mês as tarifas
bancárias, os juros das lojas totalmente dedicadas a um misterioso
"você", os custos das ligações e as bobagens que temos de ver na
televisão, além do tempo perdido com tudo, invade-nos o sentimento de que
realmente as coisas estão saindo do controle. Naturalmente, podemos reclamar,
pois hoje toda empresa que se preze tem um serviço de reclamações, que nos
atende com uma fórmula acolhedora: "A sua ligação é muito importante para
nós...".
As
notas que seguem tentam colocar um pouco de ordem no que está acontecendo,
neste mundo onde tudo que queremos tem tantos intermediários que nos sentimos
cada vez mais impotentes.
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