domingo, 1 de junho de 2014

consumo inteligente

Histórico

Mais forte por vezes do que a refutação teórica, é o exame dos resultados práticos. O Relatório sobre o Desenvolvimento Humano 1998 examina os problemas do consumo  sob a ótica das necessidades das pessoas, o que constitui uma inovação ousada. A visão é essencialmente uma chamada para a realidade: "O mundo tem recursos mais do que suficentes para acelerar o desenvolvimento humano para todos e para eradicar as piores formas de pobreza do planeta. Fazer avançar o desenvolvimento humano não é uma tarefa exorbitante. Por exemplo, estimou-se que o total adicional de investimento anual necessário para atingir acesso universal aos serviços sociais básicos seria de aproximadamente $40 bilhões, 0,1% da renda mundial, pouco mais do que um arredondamento estatístico. Isto cobre a conta da educação básica, saúde, nutrição, saúde reprodutiva, planejamento familiar e acesso a água e saneamento para todos". 

Sob o título de "As prioridades do mundo?", e a título ilustrativo, o Relatório compara necessidades não cobertas por falta de recursos, e recursos de prioridade duvidosa. Por exemplo, o investimento anual suplementar para assegurar educação básica para todos seria de $6 bilhões, que não se conseguem, enquanto se gastam $8 bilhões em cosméticos nos EUA; para assegurar água segura e saneamento para todos, seriam necessários $9 bilhões, e se gastam na Europa $11 bilhões em sorvete; saúde reprodutiva universalizada exigiria 12 bilhões suplementares por ano, o mesmo que se gasta em pefumes na Europa e nos EUA; saúde e nutrição básicas para todos exigiria $13 bilhões suplementares por ano, e se gastam $17 em ração para animais de estimação na Europa e EstadosUnidos. Além disso, gasta-se $35 bilhões em entretenimento para executivos no Japão, $50 bilhões em cigarros na Europa, $105 bilhões em bebida alcóolica na Europa, $400 bilhões em narcóticos no mundo, e $780 bilhões em despesas militares no mundo. 

Assim a degradação simultanea de capacidade reguladora por parte do mercado e do Estado leva a uma deformação do consumo. E quando o consumo, ou seja, o interesse final do consumidor, não é mais determinante, os processos produtivos se deformam. O mundo que herdamos deste processo é cada vez mais surrealista. O que está acontecendo, na realidade, é que estamos aplicando a uma realidade nova sistemas de regulação ultrapassados. Explica-se por mecanismos de mercado, teoricamente objetivos, dinâmicas que pertencem a mecanismos articulados de poder, que geram por sua vez uma cultura surrealista de comportamento econômico que tem muito pouco a ver com o que queremos da nossa vida.

Na realidade, é o conjunto do contexto que está mudando. Com as novas tecnologias os nossos gastos são cada vez menos de compra de um produto e cada vez mais de adesão a um direito de acesso, como no plano de saúde, na telefonia, na TV a cabo, no condomínio e tantos outros sistemas de consumo onde a nossa escolha é extremamente limitada.  A urbanização levou a uma expansão do consumo coletivo onde as opções são igualmente frágeis: temos muito pouco a dizer sobre a qualidade ou densidade de linhas de transporte coletivo, de recolha de lixo, de arborização das nossas ruas, limpeza dos nossos rios. Com a ampliação do poder corporativo, deixamos de ser indivíduos que optam, para nos tornarmos um "plantel" atribuido a um grande fornecedor: somos clientes de um banco porque a nossa empresa fez um acordo de lhe "fornecer" determinado número de contas de funcionários, e não fizemos alguma escolha, e a cartelização torna inclusive as opções pouco diferenciadas.

No conjunto de atividades onde o elemento principal é "imaterial", ou "intangível", no quadro do que tem se chamado de economia da informação,  ficamos na dependência do que tem sido educadamente chamado de "propriedade intelectual": o conhecimento constitui uma mercadoria entre aspas, pois só se torna fonte de lucro se uma empresa puder limitar o acesso e cobrar pedágio sobre o seu uso.


São novas realidades, que tem como denominador comum a fragilização do consumidor.  E o que é o capitalismo quando o elemento regulador principal que seria a demanda final deixou de exercer este papel? À medida que os mercados - no sentido original de mecanismo regulador democrático de inúmeros agentes econômicos - se tornam menos operacionais numa série de áreas, o sistema evolui para subsistemas diferenciados de articulação organizada de interesses corporativos, variando segundo os setores, as regiões e culturas econômicas herdadas. E para entender estes subsistemas, precisamos de estudos empíricos inovadores.


Efeitos de um consumo inteligente

Os eixos alternativos não resultam de algum desenho institucional pre-fabricado, mas de uma mistura de rejeição dos valores que nos são impostos com a busca pragmática de alternativas que funcionem. As pessoas simplesmente se defendem.
O slow food é um movimento importante. Surgindo na Itália a partir de pessoas preocupadas em ter uma vida mais agradável ainda que não necessariamente mais eficiente, o movimento tornou evidente o fato de que na corrida por nos tornarmos competitivos, esquecemos que estamos gerando um deperdício monumental do único recurso absolutamente não renovável que é o nosso tempo de vida. A apropriação comercial do nosso tempo parece ser um progresso, porque não leva em conta como valor o tempo não comercial da vida. Os exemplos são inúmeros, como o dos down-shifters nos Estados Unidos, que optam por uma vida com menos entulho de produtos comerciais e mais qualidade de vida, e representam na realidade um movimento cultural amplo e difuso, mas poderoso.

Muita gente aprendeu a "votar com o bolso", tanto no plano negativo, deixando de comprar produtos que são ambientalmente agressivos, como no plano positivo,  privilegiando produtos de cooperativas, de economia solidária e coisas do gênero. Na realidade, esta tendência está se ampliando, e leva muitas empresas a melhorarem a sua aparência cosmética, o que é positivo, pois gradualmente abre espaço para novas dinâmicas.
Outro eixo de ação consiste na organização da sociedade em torno aos seus interesses, ainda que pontuais. Em numerosos lugares estão surgindo ONGs de intermediação financeira, onde a remuneração das aplicações é razoável, mas sobretudo o dinheiro é investido de forma socialmente útil: as pessoas estão simplesmente desintermediando os fluxos de poupanças, descobrindo que não precisam necessariamente sustentar os gigantes burocráticos que são os bancos modernos.
Há comunidades que simplesmente optaram por criar a sua própria moeda, como a cidade de Palmas, no Ceará. Frente ao arrocho de crédito que os bancos privados geraram e aos juros obscenos cobrados, Palmas emite a sua própria moeda, pois afinal trata-se de um meio de troca, e não de um valor em sí. A experiência deu tão certo, em termos de dinamização da economia, que outros onze municípios estão adotando o sistema.

Há comunidades que enxugam o desemprego através da troca de serviços entre as pessoas, um tipo de crédito em horas de trabalho. Cada um pode disponibilizar as suas horas vagas prestando serviços na vizinhança, e ganha com isso um "crédito" de horas trabalhadas que lhe permitirá receber serviços correspondentes de outras pessoas: a moeda de troca não são unidades de dinheiro, mas unidades de tempo de serviços prestados.

Soluções

Teoricamente, o consumo constitui uma atividade agradável que consiste em satisfazer um conjunto de necessidades. A produção individual - em que nós mesmos fazemos o que vamos consumir - perdeu muito espaço nas sociedades modernas, e quase tudo é intermediado por terceiros, sejam empresas, administrações públicas ou organizações da sociedade civil.  Como temos de passar por diversas formas de organização social para satisfazer as nossas necessidades de consumo, coloca-se cada vez mais uma avaliação de como esta intermediação está se estruturando.

Algumas necessidades são satisfeitas por empresas fornecedoras de bens e serviços; outras por meio de bens e serviços fornecidos pelo Estado (escolas, água, estradas...); outras ainda por meio de organizações da sociedade civil (entidades esportivas, ONGs especializadas, organizações comunitárias, interesses difusos...); outras necessidades enfim não são comerciais - ou não deveriam ser - como por exemplo a expressão do sentimento religioso, e aparentemente têm pouco a ver com a economia. O consumo, no sentido amplo, envolve assim uma gama extremamente ampla de atividades, e formas diferenciadas de organização social. 

Quando compramos um pãozinho na padaria, invade-nos o cheiro do pão quentinho, somos cercados pelo burburinho dos comentários úteis ou inúteis que se ouve, e no conjunto temos o sentimento de que as coisas funcionam. Quando esperamos na fila do banco, esta satisfação já se reduz bastante. Quando a telefônica nos diz que tecla devemos apertar para buscar o serviço que nos interessa, já estamos bastante irritados. E quando somamos no fim do mês as tarifas bancárias, os juros das lojas totalmente dedicadas a um misterioso "você", os custos das ligações e as bobagens que temos de ver na televisão, além do tempo perdido com tudo, invade-nos o sentimento de que realmente as coisas estão saindo do controle. Naturalmente, podemos reclamar, pois hoje toda empresa que se preze tem um serviço de reclamações, que nos atende com uma fórmula acolhedora: "A sua ligação é muito importante para nós...".

As notas que seguem tentam colocar um pouco de ordem no que está acontecendo, neste mundo onde tudo que queremos tem tantos intermediários que nos sentimos cada vez mais impotentes.

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